sexta-feira, 8 de junho de 2012

A última visita

Eu precisava desesperadamente de um amigo naquele momento. Infelizmente, é exatamente nessas horas que não se encontra ninguém disponível. Mentalizei minha curta e restrita lista de amigos infinitas vezes, mas nenhum daqueles nomes me agradava. Fechando os olhos com força, como minha mãe um dia me ensinara, tentei conversar com Deus. Não consegui. Aquilo requeria muita concentração e eu, na minha ânsia de derrubar todas as palavras sobre alguém, não pude direcionar meus pensamentos. Foi quando aquilo aconteceu.
Na porta do meu quarto, encostado à parede numa pose tranquila e despojada, estava um garoto. Todo vestido de bege, sua pele muito branca parecia translúcida e mágica. Seus olhos não me julgavam, indagavam ou qualquer outra coisa que olhos normais fazem. Eles apenas esperavam. Esperavam por uma palavra? Um sorriso? Não sei. Olhei-os de volta, assustada. O garoto deu então, um passo à frente. Instantaneamente, me afastei. Ele sorriu e, melodicamente, disse: "Você sabe quem eu sou e sabe minha função. Agora vamos, fale.".
Sim, eu sabia quem ele era. Ouvira mitos sobre aquele garoto protetor durante toda a minha infância e, honestamente, acreditara nele fielmente. Nos últimos anos, entretanto, deixei-o de lado e até cheguei a pensar que talvez nunca mais o visse. Estava enganada. Ele havia crescido. Seus cabelos eram, agora, longos e seu sorriso perdera a infantilidade brincalhona que eu tanto amava.
Sentei-me ao seu lado sem medo e comecei a contar. Disse-lhe tudo. Disse-lhe que estava cansada de tanta monotonia e queria ver a vida de um novo ângulo. Falei-lhe sobre minha vontade de mudar a vida de alguém, transformar o que precisasse ser transformado e consertar o que precisasse ser consertado. Contei-lhe sobre meus sonhos em que salvava vidas e recebia sorrisos em troca. Tagarelei por horas... Finalmente, quando minha garganta estava seca e minha alma aliviada, aguardei por sua resposta. Segundos intermináveis se passaram até que ele me olhou nos olhos e riu. Sim, riu. Gargalhou como se estivessse assistindo uma comédia. Dava tapas no joelho como quem não consegue expressar o riso somente pela boca. Fiquei perplexa. Após horas de confissões ele ria da minha cara? Algo estava errado.
Ele parou de rir, enxugou as lágrimas que rolaram de seus olhos e ficou em silêncio. Naquele momento, minha perplexidade havia se tornado ódio e eu chacoalhei seus ombros gritando: "Que espécie de protetor você é?". Mandei-o embora e ordenei-lhe que nunca mais aparecesse. Finalmente, ele falou: "Não estava rindo de seus sonhos. Acho-os maravilhosamente belos. Estava rindo, na verdade, devido à minha imensa sorte. Você, minha amiga, seguiu meus conselhos durante sua vida toda e, agora, não precisa mais de mim. Obrigado por essa alegria."
Antes de ir, o garoto me entregou um bilhete que guardo, até hoje, em meu bolso. Em poucas palavras, aquele pedacinho de papel expressava toda a minha essência. Acredito que nunca me cansarei de lê-lo: "Achei que você desistiria desse sonho. Mas se é isso mesmo o que quer, você tem minha benção."
Quando abri os olhos, o mundo era outro. A paz inundou minha alma, meus pulmões encheram-se de um ar estranhamente puro e branco. Estava completa. Me tornara, finalmente, um anjo da guarda.

Um beijo!
Lau :)

Um comentário:

  1. Te Amo sabia s? ehhe ..
    seus textos estão cada vez mais bonitos .. :)
    Linda ;@

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