A quiromante estava de folga naquele dia. Nem mais uma mãozinha, por menor que fosse, seria lida por aqueles lábios. Depois da festa da noite anterior, na qual fingira ler incontáveis futuros escondidos em incontáveis palmas, a criatividade esvaíra-se totalmente e um dia de ócio era, agora, estritamente necessário. Em exatos treze anos de profissão, a quiromante não havia deixado de ler mãos um dia sequer. Feriados, festas religiosas, aniversários, casamentos e até velórios, todos momentos perfeitos para uma previsão fresca, diretamente da imaginação da farsante. Sentira-se mal algumas vezes por mentir com tanta frequência, mas não o fazia maldosamente, apenas precisava do dinheiro para sobreviver. Na tentativa de não arruinar nenhum futuro real com suas previsões inventadas, sempre planejava destinos vagos, baseando-se na própria vida do cliente, deixando qualquer responsabilidade literalmente nas mãos deles. Chegava até a acreditar que suas previsões iriam mesmo se concretizar, pois sabia tudo sobre a vida de todos e defendia a ideia do destino ser apenas um reflexo das próprias ações. Nem todos a viam com bons olhos, contudo. Já fora questionada inúmeras vezes, descrentes criticavam-na por cobrar pelas suas mentiras, céticos chamavam-na de bruxa. Nada disso abalava a quiromante, que pedia, todas as noites, pela criatividade de todos os dias.
Aquele dia, entretanto, tão estranhamente vago, sem leituras de "linhas da vida" e previsões amorosas, deixava-a anormalmente inquieta. Os contos de Poe que tanto inspiravam-na no trabalho pareciam não empolgá-la mais, as músicas clássicas não surtiam o efeito relaxante de sempre e seu divã vermelho empoeirado não abraçava seu corpo como o fazia todas as noites. Sentou-se perto da porta, escorregou as pernas pelo assoalho e baixou a cabeça. Nunca se sentira tão cansada e inútil. Sim, inútil. Somente nesse exato dia em que não criava destinos mirabolantes, deu-se conta de que não sabia de nada. As rugas em sua face e a pele quase translúcida de suas mãos não deixavam dúvida: já vivera muitos anos, talvez anos demais. Olhando para as manchas arroxeadas de suas pernas, pensou, pela primeira vez, no quanto gostaria de saber, realmente, sobre o futuro. Leria, então, seu próprio destino e não precisaria passar os dias e as noites inventando e espalhando mentiras.
O céu, repleto de estrelas, olhava a pequena figura da quiromante no chão. Como podiam os homens acreditar serem donos da verdade? Como podiam tentar controlar destinos com as próprias palavras? O céu esticou seu manto sobre os cabelos grisalhos da pequena quiromante e ela soube, genuinamente, de uma verdade: enquanto iludia-se pensando que sabia sobre o mundo, deixava de saber sobre si mesma.
Beijos,
Lau (:


