domingo, 9 de junho de 2013

Lendo vidas


A quiromante estava de folga naquele dia. Nem mais uma mãozinha, por menor que fosse, seria lida por aqueles lábios. Depois da festa da noite anterior, na qual fingira ler incontáveis futuros escondidos em incontáveis palmas, a criatividade esvaíra-se totalmente e um dia de ócio era, agora, estritamente necessário. Em exatos treze anos de profissão, a quiromante não havia deixado de ler mãos um dia sequer. Feriados, festas religiosas, aniversários, casamentos e até velórios, todos momentos perfeitos para uma previsão fresca, diretamente da imaginação da farsante. Sentira-se mal algumas vezes por mentir com tanta frequência, mas não o fazia maldosamente, apenas precisava do dinheiro para sobreviver. Na tentativa de não arruinar nenhum futuro real com suas previsões inventadas, sempre planejava destinos vagos, baseando-se  na própria vida do cliente, deixando qualquer responsabilidade literalmente nas mãos deles. Chegava até a acreditar que suas previsões iriam mesmo se concretizar, pois sabia tudo sobre a vida de todos e defendia a ideia do destino ser apenas um reflexo das próprias ações. Nem todos a viam com bons olhos,  contudo. Já fora questionada inúmeras vezes, descrentes criticavam-na por cobrar pelas suas mentiras, céticos chamavam-na de bruxa. Nada disso abalava a quiromante, que pedia, todas as noites, pela criatividade de todos os dias.
Aquele dia, entretanto, tão estranhamente vago, sem leituras de "linhas da vida" e previsões amorosas, deixava-a anormalmente inquieta. Os contos de Poe que tanto inspiravam-na no trabalho pareciam não empolgá-la mais, as músicas clássicas não surtiam o efeito relaxante de sempre e seu divã vermelho empoeirado não abraçava seu corpo como o fazia todas as noites. Sentou-se perto da porta, escorregou as pernas pelo assoalho e baixou a cabeça. Nunca se sentira tão cansada e inútil. Sim, inútil. Somente nesse exato dia em que não criava destinos mirabolantes, deu-se conta de que não sabia de nada. As rugas em sua face e a pele quase translúcida de suas mãos não deixavam dúvida: já vivera muitos anos, talvez anos demais. Olhando para as manchas arroxeadas de suas pernas, pensou, pela primeira vez, no quanto gostaria de saber, realmente, sobre o futuro. Leria, então, seu próprio destino e não precisaria passar os dias e as noites inventando e espalhando mentiras.
O céu, repleto de estrelas, olhava a pequena figura da quiromante no chão. Como podiam os homens acreditar serem donos da verdade? Como podiam tentar controlar destinos com as próprias palavras? O céu esticou seu manto sobre os cabelos grisalhos da pequena quiromante e ela soube, genuinamente, de uma verdade: enquanto iludia-se pensando que sabia sobre o mundo, deixava de saber sobre si mesma.

Beijos,
Lau (:

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Um pé de laranja


A jovem laranjeira, ao sentir a leve brisa da manhã, esticou preguiçosamente seus galhos, como se quisesse alcançar as nuvens do céu. Suas folhas, particularmente mais verdes naquele dia, farfalharam alegremente e seus frutos despertaram felizes, ansiosos pela colheita.

- Como amo estar viva! – dizia a laranjeira – Não há nada que me aborreça, nada que amarele minha folhagem. Gostaria de poder agradecer ao jardineiro por plantar-me em tão belo jardim.

Um sabiá amigo, que provava de seus frutos frequentemente, disse:

- Pois agradeça! Certamente fará seu jardineiro feliz.

- Ah, sabiá! Os homens só acreditam naquilo que leem nos livros. Minha voz não tem som para eles, nem ao menos entendem o que o Vento sussurra! Você deve concordar comigo, não há ser mais claro que o Vento.

O pequeno pássaro concordou tristemente e voou para outro jardim, na procura de goiabas. A laranjeira suspirou longamente e, relaxando seus ramos, pensou em quanto era feliz. O mundo devia ser um lugar extraordinário, se fosse uma extensão de seu terreno. Deveriam existir milhões de laranjeiras como ela, cercadas por árvores de todo tipo, que conversavam entre si sobre a grandiosidade da vida. Curiosa a respeito de outros jardins, a bela árvore perguntou à mariposa que por lá passava:

- Mariposa, conte-me sobre as outras plantações que visita. Como são as videiras? São realmente apegadas umas às outras? E as jaqueiras? São mesmo fortes e intimidadoras? Conte-me, mariposa, não me aguento de curiosidade!

- São sim, curioso pé de laranjas – A mariposa respondeu com um leve sorriso – Mas o mundo vem mudando tanto! Aquilo que nossos ancestrais nos contam não é mais inteiramente verdade. Acredita que acabo de ver um senhor borrifar um líquido num tomate, deixando-o quase completamente branco? Pergunto-me o que há de errado com sua bela coloração original.

- Certamente é para deixa-lo feliz – Respondeu alegremente a arvorezinha - Sabe, mariposa, não há tristeza ou injustiça no mundo, tudo funciona perfeitamente para satisfazer todo ser, por mais insignificante que ele possa parecer.

- Como você se engana, jovenzinha! O mundo está cheio de desgraças! Vi, com meus próprios olhos, uma floresta ser cortada inteirinha. E sabe o que fizeram com as pobres árvores? – Sem deixar tempo para resposta, continuou – Móveis! Camas e guarda-roupas! Quer saber mais? A água do precioso rio que por aqui corre já deixou de ser limpa e deliciosa há meses!

- Não pode ser verdade, até onde meus olhos alcançam, só existe felicidade. Como pude me iludir de tal maneira? – Marejado de lágrimas, seu olhar pousou na mariposa.

- O mundo é dos homens, querida. Nós, animais e plantas, perdemos a voz. As ondas do mar não são mais ouvidas, a chuva deixou de recitar poemas, o romantismo das rosas se foi! Não quero deixa-la triste, laranjeira, mas já é hora de você saber a verdade.

A dor que a ingênua arvore sentiu foi tão forte que pôs-se a chorar, murmurando algo parecido com “O mundo é dos homens”.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Um vencedor



        O verdadeiro vencedor não se deixa abater pelas infelicidades, nem se torna arrogante pelas conquistas. Porque vitórias dignas são alcançadas por aqueles que nascem da adversidade e estes, por sua vez, agarram o sucesso como recompensa pelas dificuldades a eles impostas.
            A autodeterminação nasce de um sonho flagelado pela realidade. Ao invés de viver no futuro, onde a felicidade é fácil e gratuita, o vencedor abraça o presente e vê o insucesso apenas como uma oportunidade para recomeçar com mais inteligência. Até mesmo um obstáculo pode levar ao triunfo.
         O verdadeiro vencedor posta-se à frente de seu poder, contendo-o. A humanidade é, enfim, maior que qualquer conquista.