quarta-feira, 1 de maio de 2013

Um pé de laranja


A jovem laranjeira, ao sentir a leve brisa da manhã, esticou preguiçosamente seus galhos, como se quisesse alcançar as nuvens do céu. Suas folhas, particularmente mais verdes naquele dia, farfalharam alegremente e seus frutos despertaram felizes, ansiosos pela colheita.

- Como amo estar viva! – dizia a laranjeira – Não há nada que me aborreça, nada que amarele minha folhagem. Gostaria de poder agradecer ao jardineiro por plantar-me em tão belo jardim.

Um sabiá amigo, que provava de seus frutos frequentemente, disse:

- Pois agradeça! Certamente fará seu jardineiro feliz.

- Ah, sabiá! Os homens só acreditam naquilo que leem nos livros. Minha voz não tem som para eles, nem ao menos entendem o que o Vento sussurra! Você deve concordar comigo, não há ser mais claro que o Vento.

O pequeno pássaro concordou tristemente e voou para outro jardim, na procura de goiabas. A laranjeira suspirou longamente e, relaxando seus ramos, pensou em quanto era feliz. O mundo devia ser um lugar extraordinário, se fosse uma extensão de seu terreno. Deveriam existir milhões de laranjeiras como ela, cercadas por árvores de todo tipo, que conversavam entre si sobre a grandiosidade da vida. Curiosa a respeito de outros jardins, a bela árvore perguntou à mariposa que por lá passava:

- Mariposa, conte-me sobre as outras plantações que visita. Como são as videiras? São realmente apegadas umas às outras? E as jaqueiras? São mesmo fortes e intimidadoras? Conte-me, mariposa, não me aguento de curiosidade!

- São sim, curioso pé de laranjas – A mariposa respondeu com um leve sorriso – Mas o mundo vem mudando tanto! Aquilo que nossos ancestrais nos contam não é mais inteiramente verdade. Acredita que acabo de ver um senhor borrifar um líquido num tomate, deixando-o quase completamente branco? Pergunto-me o que há de errado com sua bela coloração original.

- Certamente é para deixa-lo feliz – Respondeu alegremente a arvorezinha - Sabe, mariposa, não há tristeza ou injustiça no mundo, tudo funciona perfeitamente para satisfazer todo ser, por mais insignificante que ele possa parecer.

- Como você se engana, jovenzinha! O mundo está cheio de desgraças! Vi, com meus próprios olhos, uma floresta ser cortada inteirinha. E sabe o que fizeram com as pobres árvores? – Sem deixar tempo para resposta, continuou – Móveis! Camas e guarda-roupas! Quer saber mais? A água do precioso rio que por aqui corre já deixou de ser limpa e deliciosa há meses!

- Não pode ser verdade, até onde meus olhos alcançam, só existe felicidade. Como pude me iludir de tal maneira? – Marejado de lágrimas, seu olhar pousou na mariposa.

- O mundo é dos homens, querida. Nós, animais e plantas, perdemos a voz. As ondas do mar não são mais ouvidas, a chuva deixou de recitar poemas, o romantismo das rosas se foi! Não quero deixa-la triste, laranjeira, mas já é hora de você saber a verdade.

A dor que a ingênua arvore sentiu foi tão forte que pôs-se a chorar, murmurando algo parecido com “O mundo é dos homens”.

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