A jovem laranjeira, ao sentir a
leve brisa da manhã, esticou preguiçosamente seus galhos, como se quisesse
alcançar as nuvens do céu. Suas folhas, particularmente mais verdes naquele
dia, farfalharam alegremente e seus frutos despertaram felizes, ansiosos pela
colheita.
- Como amo estar viva! – dizia a
laranjeira – Não há nada que me aborreça, nada que amarele minha folhagem.
Gostaria de poder agradecer ao jardineiro por plantar-me em tão belo jardim.
Um sabiá amigo, que provava de
seus frutos frequentemente, disse:
- Pois agradeça! Certamente fará
seu jardineiro feliz.
- Ah, sabiá! Os homens só
acreditam naquilo que leem nos livros. Minha voz não tem som para eles, nem ao
menos entendem o que o Vento sussurra! Você deve concordar comigo, não há ser
mais claro que o Vento.
O pequeno pássaro concordou
tristemente e voou para outro jardim, na procura de goiabas. A laranjeira
suspirou longamente e, relaxando seus ramos, pensou em quanto era feliz. O
mundo devia ser um lugar extraordinário, se fosse uma extensão de seu terreno.
Deveriam existir milhões de laranjeiras como ela, cercadas por árvores de todo
tipo, que conversavam entre si sobre a grandiosidade da vida. Curiosa a
respeito de outros jardins, a bela árvore perguntou à mariposa que por lá
passava:
- Mariposa, conte-me sobre as
outras plantações que visita. Como são as videiras? São realmente apegadas umas
às outras? E as jaqueiras? São mesmo fortes e intimidadoras? Conte-me,
mariposa, não me aguento de curiosidade!
- São sim, curioso pé de laranjas
– A mariposa respondeu com um leve sorriso – Mas o mundo vem mudando tanto!
Aquilo que nossos ancestrais nos contam não é mais inteiramente verdade.
Acredita que acabo de ver um senhor borrifar um líquido num tomate, deixando-o
quase completamente branco? Pergunto-me o que há de errado com sua bela
coloração original.
- Certamente é para deixa-lo
feliz – Respondeu alegremente a arvorezinha - Sabe, mariposa, não há tristeza
ou injustiça no mundo, tudo funciona perfeitamente para satisfazer todo ser,
por mais insignificante que ele possa parecer.
- Como você se engana,
jovenzinha! O mundo está cheio de desgraças! Vi, com meus próprios olhos, uma
floresta ser cortada inteirinha. E sabe o que fizeram com as pobres árvores? –
Sem deixar tempo para resposta, continuou – Móveis! Camas e guarda-roupas! Quer
saber mais? A água do precioso rio que por aqui corre já deixou de ser limpa e
deliciosa há meses!
- Não pode ser verdade, até onde
meus olhos alcançam, só existe felicidade. Como pude me iludir de tal maneira?
– Marejado de lágrimas, seu olhar pousou na mariposa.
- O mundo é dos homens, querida.
Nós, animais e plantas, perdemos a voz. As ondas do mar não são mais ouvidas, a
chuva deixou de recitar poemas, o romantismo das rosas se foi! Não quero
deixa-la triste, laranjeira, mas já é hora de você saber a verdade.
A dor que a ingênua arvore sentiu
foi tão forte que pôs-se a chorar, murmurando algo parecido com “O mundo é dos homens”.
Nenhum comentário:
Postar um comentário