E de repente, a rainha ficou
cega. Assim, num fechar de pálpebras sonolentas, seus olhos simplesmente
resolveram deixar de enxergar. A escuridão que, no início, só assolou o
castelo, rapidamente se espalhou pelo reino. Famílias famintas, animais miseráveis,
mendigos sujos. A rainha não mais podia enxerga-los.
Os
pedidos de misericórdia dos desafortunados logo alcançaram os ouvidos da
rainha, mas, segundo ela, era difícil tomar providências dessa maneira, às
cegas. Pediu ajuda, então, aos seus “homens de confiança”, o bispo do condado e
o contador do castelo. Para auxiliar a amada rainha, escreveram relatórios
complexos repletos de números confusos e tabelas desordenadas. A soberana,
atordoada pelas informações, pôs-se indisposta e deixou, aos dois ajudantes, a
tarefa de decidir sobre o futuro dos miseráveis. Após curtos minutos de
conversa, chegaram ao veredito: a miséria não era tão arrasadora quanto o povo clamava.
Os
impostos recolhidos chegavam ao escritório da rainha toda manhã de domingo e eram
contados, pessoalmente, tostão por tostão. Como a rainha contava o dinheiro se
estava cega? As moedas, dizia ela, tinham particularidades, nervuras e texturas
que as diferenciavam. A visão não era necessária, nesse momento.
E
quando a revolução chegou, clamando pelos olhos da rainha, as tropas foram
soltas. Se não enxergava, como acreditar naquele povo constantemente
insatisfeito? Morreram milhares de camponeses, mas como a rainha não podia ver
os corpos mutilados, acreditou terem ocorrido apenas três mortes.
Inesperadamente,
como foi embora, a luz voltou ao reino. Os olhos da rainha encheram-se,
rapidamente, de uma claridade esperançosa. O povo saiu às ruas, festejando. A
alegria, entretanto, foi logo derrubada. Na porta do castelo via-se o manto
real, a coroa real, os cabelos reais, mas nenhum olhar real. A expressão da
rainha era indiferente, superior, enojada. O cenário visto por ela, agora de
olhos abertos, não a agradava. O mundo perfeito de sua mente era graciosamente
belo, rico, dourado. Percebeu que era mais fácil, e mais prazeroso, viver só
por si. Fechou os olhos e declarou-se cega por toda eternidade.
Um beijo,
Lau :)

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