quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Os olhos da rainha


         E de repente, a rainha ficou cega. Assim, num fechar de pálpebras sonolentas, seus olhos simplesmente resolveram deixar de enxergar. A escuridão que, no início, só assolou o castelo, rapidamente se espalhou pelo reino. Famílias famintas, animais miseráveis, mendigos sujos. A rainha não mais podia enxerga-los.
         Os pedidos de misericórdia dos desafortunados logo alcançaram os ouvidos da rainha, mas, segundo ela, era difícil tomar providências dessa maneira, às cegas. Pediu ajuda, então, aos seus “homens de confiança”, o bispo do condado e o contador do castelo. Para auxiliar a amada rainha, escreveram relatórios complexos repletos de números confusos e tabelas desordenadas. A soberana, atordoada pelas informações, pôs-se indisposta e deixou, aos dois ajudantes, a tarefa de decidir sobre o futuro dos miseráveis. Após curtos minutos de conversa, chegaram ao veredito: a miséria não era tão arrasadora quanto o povo clamava.
         Os impostos recolhidos chegavam ao escritório da rainha toda manhã de domingo e eram contados, pessoalmente, tostão por tostão. Como a rainha contava o dinheiro se estava cega? As moedas, dizia ela, tinham particularidades, nervuras e texturas que as diferenciavam. A visão não era necessária, nesse momento.
         E quando a revolução chegou, clamando pelos olhos da rainha, as tropas foram soltas. Se não enxergava, como acreditar naquele povo constantemente insatisfeito? Morreram milhares de camponeses, mas como a rainha não podia ver os corpos mutilados, acreditou terem ocorrido apenas três mortes.
         Inesperadamente, como foi embora, a luz voltou ao reino. Os olhos da rainha encheram-se, rapidamente, de uma claridade esperançosa. O povo saiu às ruas, festejando. A alegria, entretanto, foi logo derrubada. Na porta do castelo via-se o manto real, a coroa real, os cabelos reais, mas nenhum olhar real. A expressão da rainha era indiferente, superior, enojada. O cenário visto por ela, agora de olhos abertos, não a agradava. O mundo perfeito de sua mente era graciosamente belo, rico, dourado. Percebeu que era mais fácil, e mais prazeroso, viver só por si. Fechou os olhos e declarou-se cega por toda eternidade.

Um beijo,
Lau :)

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